Uma indústria condenada à mudança

A definição surge num registo mordaz, sob o título “A cronologia do pensamento da imprensa”:

 

1995: Isto da Internet? É apenas uma moda, o rádio amador dos anos 90

1998: Epá, se calhar falhámos a entrada na onda da Internet

2000: Ah, afinal tínhamos razão, era apenas uma moda. Está tudo bem

2005: Os jornais são um grande negócio, ou não são?

2008: Ai, merda…

2012: Socorro! Faremos tudo o que nos disserem para fazer. Mas façam isto parar!

 

O raciocínio é do ex-jornalista norte-americano e actual consultor de media, Mark Potts, no seu blogue “Recouvering Journalist”. E traduz, de forma humorista e certeira, a montanha russa que tem sido a relação do negócio da imprensa com a revolução digital. Uma história de altos e baixos que, como sugere Potts, está ainda longe do final: a revolução está a ocorrer neste preciso momento e a única certeza que os profissionais do sector têm é que resultará numa “completa transformação da indústria”. Para quê concretamente? Já ninguém ousa arriscar.

As variáveis com que o negócio dos media tem sido confrontado nos últimos 15 anos dificultam o exercício de futurologia. As tecnologias e plataformas sucedem-se a um ritmo vertiginoso, os “hypes” à volta da “next big thing” repetem-se e esquecem-se quase com a mesma frequência. No seio deste processo, os media vêm-se confrontados com dois modelos de actuação: ora arriscam, apostam e investem, temendo perder para a concorrência o lugar no barco da salvação do negócio; ora abandonam projectos, reajustam estratégias e esboçam novos futuros, consoante as contingências orçamentais ou a crença de que o caminho certo é diferente do até ali traçado.

O digital tornou-se o coração do negócio dos media
Mas mesmo nestes tempos de incerteza, há factores que se assumem com forte grau de certeza como imprescindíveis na nova matriz que se constrói: num mundo onde 2 mil milhões de pessoas estão ligadas à Internet, onde mais de mil milhões acedem assiduamente a redes sociais, onde o telemóvel é sobretudo uma ferramenta de informação e de troca de dados e onde existem já 156 milhões de blogues públicos, o digital já não pode apenas ser encarado como um futuro ou presente para os media: é mais do que isso, é o coração do negócio. Sobretudo para a imprensa.

São os números que o dizem.

Olhemos para alguns exemplos: a média de venda de jornais diários generalistas caiu 10% na Europa e 20% na América do Norte desde 2006; em ambos os casos, o número de títulos de imprensa disponíveis nas bancas caiu cerca de 5% no mesmo período; pior, o investimento publicitário em imprensa caiu globalmente 9% nos Estados Unidos e 1% na Europa entre 2009 e 2010; em contrapartida, nesse mesmo intervalo, o investimento das marcas na Internet aumentou 13% nos Estados Unidos e 14% na Europa.

Mas além dos efeitos da revolução tecnológica a jusante do negócio dos media – ou seja, ao nível das receitas e do modelo de negócio –, há também outros impactos que obrigam a mudanças de paradigma a montante da operação dos grupos de comunicação social. Porque os consumidores evoluíram, alteraram radicalmente os seus hábitos de consumo de media e, no limite, conseguiram até transformar-se de sujeitos passivos a protagonistas do circuito informativo.

Os novos caminhos da produção informativa
Não é preciso recuar muito no tempo para verificar de forma prática a extensão dessa mudança: a notícia da morte de Whitney Houston foi dada no Twitter duas horas antes de ser anunciada em qualquer meio de massas. Quando a notícia chegou às televisões, já o tema tinha produzido milhares de posts e comentários em várias redes sociais. Sim, o propalado jornalismo do cidadão é ainda um conceito estranho e que carece da chancela de rigor e qualidade só ao alcance do jornalismo profissional. Mas não há como passar ao lado desta evidência: o circuito da produção informativa tem cada vez mais novos caminhos.

Não terá sido por acaso que a BBC e a Sky News emitiram já este ano directivas internas a proibir os seus jornalistas de publicarem notícias em primeira-mão no Twitter, antes de comunicarem essas informações às chefias: é a assunção de que estas plataformas não são apenas complementares aos meios de comunicação ditos tradicionais; são também concorrentes. Primeiro, porque fazem com que o ritmo do ciclo informativo esteja a ficar cada vez mais reduzido. Depois porque muitas vezes “canibalizam”, de forma gratuita (no sentido de sem retorno financeiro), os conteúdos produzidos pelos meios de comunicação social.

Perante esta realidade, como assinalou também recentemente o presidente do grupo de consultoria em media Innovation, Juan António Giner, os jornais têm de assumir o desafio de evitarem transformar-se em “morgues de notícias” ou “compilações diárias de notícias mortas”. A alternativa? Fazer dos jornais impressos produtos informativos mais prospectivos e aprofundados.

Até porque, com a internet e os tablets a fazerem parte das rotinas das novas gerações quase desde o berço, é inevitável que um consumidor se questione sobre o porquê de ter de esperar pelo dia seguinte e de pagar um determinado valor para ter acesso, nas bancas, à mesma informação que estava disponível gratuitamente, no dia anterior, numa qualquer plataforma digital.

Como referiu numa entrevista o senior adviser da Knight Foundation, Eric Newton, nesta conjuntura “a única coisa que os jornalistas podem fazer mal é não mudarem”. E, com eles, mudar também a estrutura envolvente da profissão.

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