O consumidor ausente

O consumidor de informação. Esta foi uma das ausências nos temas debatidos das duas primeiras sessões das conferências “Jornalismo em tempos de crise”, dedicadas aos desafios e oportunidades na gestão editorial e financeira de órgãos de comunicação social.

Quem é ele, o consumidor? Como é que ele se transforma no tempo? O que procura nos órgãos de comunicação social? Em que plataformas consome informação? A que horas? Quando quer informação para reflectir e formar opinião e quando só a quer para saber que roteiro traçar na manhã? Presta atenção à publicidade ou pura simplesmente ignora-a? Sente-se violentado pelo espaço publicitário? Como reage?

Estas são perguntas a que os vários gestores parecem ter grande dificuldade em responder. Há, claro, alguma informação,  como tráfego nos sites ou as divisões em classes de rendimento, importantes para a publicidade. Há também as redes sociais e as caixas de comentários. Mas todas parecem pouco potenciadas para estudar e promover uma relação sólida com as respectivas audiências.

“Precisamos de conhecer melhor” os consumidores de informação, de ter mais informação sobre eles, reconheceu, por exemplo, Pedro Norton, vice-presidente da comissão executiva da Impresa, uma das maiores empresas de comunicação social do país.

As novas tecnologias e media vieram, até certo ponto, potenciar o relacionamento com a audiência. Mas, ao mesmo tempo, o crescente poder dos intermediários na distribuição da informação está a dificultar essa relação directa – basta pensar na resistência da Apple em partilhar com os órgãos de comunicação social dados sobre os clientes das suas aplicações, ou na forma como os agregadores puxam notícias dos vários sites de informação mantendo a audiência no seu ambiente.

A pouca informação sobre a audiência é um entrave a um jornalismo mais apelativo, mais próximo da populações e dos seus interesses, vincou José Azeredo Lopes, ex-presidente da ERC, numa crítica aos factores que podem estar a ditar uma perda continua de leitores na imprensa.

A importância de um “jornalismo local e interactivo” promovido pelas novas plataformas e soluções tecnológicas, foi também vincada por Francisco Pinto Balsemão, presidente do conselho de administração e maior accionista da Impresa

Esta relação distante é ainda potenciadora de um outro fenómeno arriscado: o da homogeneização de conteúdos ao sabor do tráfego e da audiência imediata, indicadores grosseiros de sucesso. 

Com a internet “os jornais estão a ficar mais próximos das televisões na guerra de audiências”, analisa Pedro Guerreiro. Nessa tendência, o director do Negócios salientou nomeadamente o carácter mimético de muitas decisões editoriais que surgem à boleia das análises das grandes consultoras que exportam receitas vencedoras de audiências, “promovendo uma homogeneização” dos produtos editoriais, ignorando (fazendo desaparecer?) especificidades dos respectivos mercados.

Essa tendência de homogeneização pode até garantir a sobrevivência de um órgão de comunicação social. Mas todos parecem concordar que a diferenciação da informação como forma afirmação e definição editorial terá de ser um ingrediente para o sucesso. Por enquanto, não está fácil. RPJ

Esta entrada foi publicada em Conferência, Fórum de Jornalistas, Jornalismo com as etiquetas , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s