A escolha

De três em três anos cortes de custos, por vezes cortes de salários. À primeira as equipas aceitam, depois as resistências são crescentes. Mesmo com todos os sacrifícios, a solução definitiva não aparece. É um processo infernal.  

Esta uma descrição de José Manuel Fernandes, ex-director do Público, na última conferência Jornalismo em tempos de crise. É o relato pessoal de um actor relevante, que reconhece que não pode dizer que teve sucesso perante uma crise esmagadora. Ele entretanto saiu do Público, o ciclo infernal continuou.

 

Continuou no Público, e em vários outros órgãos de comunicação social. Nos últimos meses, também pelo menos o Sol e o Diário Económico adoptaram medidas violentas de cortes de custos. Outros vão reduzindo equipas e custos de forma mais lenta, menos visível. Todos à procura de compensar perda de receitas, e a maioria a perder leitores nos seus suportes tradicionais. A situação é agravada por uma crise económica profunda.

Como travar esta “tempestade perfeita” – como a descreveu Pedro Norton, número dois da Impresa? Como quebrar o ciclo infernal, nas palavras do ex-director do Público?

José Manuel Fernandes coloca a tónica na necessidade dos órgãos de comunicação social definirem mais claramente uma linha editorial, de “terem uma agenda própria” e de pensarem mais nos leitores. “A única solução”, sublinha, “é perceber que é preciso fazer ainda mais escolhas” para acrescentar valor e utilidade à informação. Só assim se cria uma marca, só assim se vence num mundo de crescente concorrência e de perda de centralidade dos suportes tradicionais na distribuição da informação.

José Azeredo Lopes, ex-presidente da ERC, defendeu algumas escolhas em particular: um jornalismo mais exigente e coerente, que reflita uma reflexão mais profunda sobre o que é informação e opinião, e que se empenhe em conhecer melhor o leitor, procurandoum contacto mais próximo com a audiência e com o conteúdo informativo.

O problema com todas estas escolhas é que têm riscos. E como em quase todas as actividades económicas, erros significam perdas num momento de grande pessão financeira. O facto de se conhecerem mal os consumidores de informação só torna tudo mais difícil.

Pedro Norton, número dois da Imprensa, dá conta do desafio aos olhos do gestor. Por um lado, diz, “conhecemos mal” o consumidor de informação, por outro, as empresas estão em processos de “desalavancagem financeira exactamente num momento em que é necessário investir e correr riscos como nunca”.

Mas se as escolhas são difíceis, não as tomar pode significar caminhar para a irrelevância junto dos consumidores, perdendo assim capacidade negocial junto dos cada vez mais poderosos distribuidores de informação. O aviso foi dados por André Freire Andrade, da Carat, uma agência de meios. “A marca e da publicidade são essenciais para a internet que precisa de credibilizar”, diz, aconselhando que gestores a procurarem mais sinergias com as redes sociais de distribuição de informação. RPJ

 

 

 

 

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2 respostas a A escolha

  1. comment diz:

    e se, em vez de destacar apenas os casos do Sol e do Económico, se fizesse um levantamento de todos os grupos que reduziram drasticamente o seu pessoal, nomeadamente a Impresa, a Cofina e a Controlinveste? SIC, DN, Correio da Manhã, Record e muitos outros sofreram golpes e sangrias tão ou mais agressivos que o Sol ou o Económico – por que se destacam só esses dois?

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