Quantos jornalistas mudariam de emprego amanhã se pudessem?

A pergunta foi lançada, em jeito de provocação, por António Granado, editor multimédia na RTP, às cerca de 60 pessoas – a grande maioria, jornalistas – que assistiram à segunda sessão da conferência que se realizou no passado sábado na Casa da Imprensa. Numa sessão em que se procurava responder à questão que desafios colocam os novos media ao jornalismo, o também professor universitário foi categórico: “é muito mais do que o problema dos novos e dos velhos media”. Para Granado, a origem da crise do jornalismo não está nas novas tecnologias, mas sobretudo na desregulação do mercado de trabalho.

“Esta é uma profissão que está em desagregação. Não vou perguntar aos jornalistas na sala quantos mudariam de emprego amanhã se tivessem outro emprego porque eu sei qual seria o resultado dessa pergunta”. Para o editor multimédia da RTP, a vocação do jornalismo está a ser contrariada pelo negócio do jornalismo. Como chegámos aqui? Eis as principais causas desta crise, segundo Granado:

1. Desregulação do mercado de trabalho. “Esta desregulação afecta profundamente a nossa profissão. Aparecem novas formas de emprego, contratos precários, a utilização do trabalho dos free-lancers, flexibilidade no posto de trabalho e isso impede a verdade, impede o exercício daquilo que nós antigamente chamávamos como jornalismo. Estas relações de trabalho transformam os jornalistas, em vez de uma profissão liberal com regras próprias, numa profissão em que se depende muito mais do empregador, onde é praticamente impossível dizer não”.

2. A avaliação por objectivos. Os objectivos são fixados por consultores que pouco ou nada sabem da profissão, defende.

3. A multi-tarefa. “A necessidade de executar multi-tarefas põe em causa a essência do jornalismo, que é a confirmação”.

4. Controlo vertical nas redacções. A organização das redacções é cada vez mais verticalizada, “onde a discussão interna é cada vez menor. Quem levanta uma questão está a pôr um problema à organização […]. As reuniões de editores são cada vez mais sítios onde se recebem ordens”.

5. Utilização de fontes anónimas. “Todos os dias há fontes anónimas que desmentem fontes anónimas que desmentem fontes anónimas. Granado dá um exemplo: ‘fonte da PSP contactada, disse que não tinha nada para dizer’. Ou seja: eu tenho uma coisa para não lhe dizer, mas por favor não diga que eu não lhe disse. M. E.

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3 respostas a Quantos jornalistas mudariam de emprego amanhã se pudessem?

  1. João figueira diz:

    Plenamente de acordo, António. Mas para mim, que vivo a 200km de Lisboa, como sabes — e basta mudarmos um pouco de local para a nossa perspectiva ser diferente — há outros problemas e deficiências que têm fragilizado o jornalismo. Refiro-me ao crescente desinvestimento noticioso fora de Lisboa e à pouca abertura e disponibilidade das redações (ou suas chefias) para virem em busca de boas estórias. Vê-se que a generalidade dos jornais é feita sem alegria….e nenhum entusiasmo. Assim, não há jornalismo que resista.

  2. Madalena Esteves diz:

    Eu teria mudado já ontem, se me dessem a oportunidade de fazer outras coisas… mas com mais de 50 anos (51) já não tenho essa oportunidade. Todavia, não deixo de a procurar. O jornalismo vai acabar mais cedo ou mais tarde, como acabaram outras actividades. O cidadão-jornalista está a matar o jornalista, no Facebook, no Twitter, nos blogues. Nas faixas etárias mais jovens já ninguém precisa de mensageiros, porque todos são mensageiros.

  3. Pingback: Não é a redacção, estúpido! : Ponto Media

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