“Ouvimos dizer que fez sexo com a sua mãezinha. É verdade?”

Quais são os direitos e deveres dos entrevistados e entrevistadores?

À boleia da sentença sobre os gravadores roubados por Ricardo Rodrigues aos jornalistas da Sábado, Oscar Mascarenhas, o provedor do leitor do DN reflectiu este fim de semana sobre os direitos dos entrevistados.

Num texto titulado “Ricardo Rodrigues e as lições para os jornalistas do DN“, o provedor  deixa várias lições e um aviso aos jornalistas do seu jornal: não poderão contar com ele para “liberdades de imprensa” que permitam o abuso dos entrevistados.

Mascarenhas escreve:

Experimentem entrevistar um juiz, ministro ou presidente e perguntem-lhe: “Ouvimos dizer que fez sexo com a sua mãezinha. É verdade?”

Desculpem-me pela violência do exemplo: a minha intenção é ser tão claro que até um jurista especializado em sinuosidades como Ricardo Rodrigues possa perceber que também ele tem direito a trato leal por parte dos jornalistas (…)

Não se percebe se o provedor entende que os jornalistas da Sábado foram ou não leais com Ricardo Rodrigues. Mas esse também não é um ponto essencial do seu texto, visto que a tese que defende é a de que, independentemente dessa lealdade, há direitos dos entrevistados que têm sempre de ser garantidos. São eles:

a Ricardo Rodrigues não ocorreu que bastaria dizer aos jornalistas: “Não continuo a entrevista e não autorizo a publicação de nada desta conversa.” Esta recusa não é nenhum atentado contra liberdade de imprensa e os jornalistas teriam de respeitar-lhe a vontade

(…)

O entrevistado é dono da sua palavra até ao momento da publicação. Pode fazer exigências sobre as perguntas a que aceita responder, tem direito a rever as respostas e até lhe é permitido exigir conhecer o modo como a entrevista vai ser tratada e titulada: os jornalistas só têm de aceitar – ou não publicar nada.

(…)

Há perguntas que o entrevistado tem direito a que não lhe façam, porque fica estigmatizado, qualquer que seja a resposta ou a ausência desta. Experimentem entrevistar um juiz, ministro ou presidente e perguntem-lhe: “Ouvimos dizer que fez sexo com a sua mãezinha. É verdade?”

O principio de lealdade que Mascarenhas invoca é defendido na generalidade dos códigos de conduta de órgãos de comunicação social. Já a forma com o provedor interpreta esse princípio e o concretiza no caso das entrevistas são muito mais discutíveis, como revela uma pesquisa rápida a alguns códigos de conduta. Por exemplo:

O “The Guardian” (pág. 5) assume como regra geral que não há aprovação prévia de textos por fontes:

The general rule is that no one should be given the right to copy approval. In certain circumstances we may allow people to see copy or quotes but we are not required to alter copy. We should avoid offering copy approval as a method of securing interviews or co-operation.

A Reuters vinca a importância da lealdade (pág. 525), mas segue a mesma prática – os entrevistados não tem direito à aprovação (pág. 536):

We must always identify ourselves as journalists and be absolutely open about our intentions. Reporters should seek out those who want to talk. Interviewees must be aware that their comments and identities may be widely publicised

(…)

Reuters never submits stories, scripts or images to sources to vet before publication. This breaches our independence  (…) Interview subjects or their organisations or companies sometimes ask to see the quotes we plan to publish or broadcast before they are issued. We should resist such requests where possible. If we do have to submit quotes for approval, we should not agree to a quote being materially changed

Ficam os dois exemplos e o convite ao debate.

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