“As Primeiras Mulheres Repórteres”

Há 50 anos, só dois por cento dos jornalistas sindicalizados em Portugal eram mulheres. Eram apenas dez e destas nem todas trabalhavam como jornalistas – algumas realizavam funções de apoio nas redacções, um “território de homens num tempo de opressão”, escreve Fernando Alves no prefácio do livro “As Primeiras Mulheres Repórteres – Portugal nos anos 60 e 70”, de Isabel Ventura. “Era a ditadura, era a censura. Mas era, também, um conservadorismo beato e preconceituoso.”

A obra que a Tinta da China acaba de publicar parte da tese de mestrado de Isabel Ventura, do Centro de Investigação em Ciências Sociais da Universidade do Minho, e inclui os perfis e as contribuições de seis jornalistas: Maria Antónia Palla, Diana Andringa e Maria Teresa Horta, que “utilizaram o jornalismo como forma de denúncia para a situação de desigualdade em que viviam as portuguesas”; Edite Soeiro, que “foi alvo do preconceito que impunha certos temas às mulheres ou que excluía outros”; Leonor Pinhão, “a primeira mulher portuguesa a escrever num jornal desportivo”; e Alice Vieira, que “entrou no jornalismo através da colaboração num suplemento juvenil”, escreve a investigadora.

Haveria outros nomes a ouvir e incluir, lembra Fernando Alves. A investigadora justifica a escolha destes “casos paradigmáticos pela proeza de terem conseguido entrar na profissão em órgãos de comunicação generalistas e não temáticos; por terem dado continuidade à carreira; por, durante o seu percurso profissional, terem atingido um estatuto de reconhecimento entre os seus pares e por terem acedido a posições de chefia e/ou de direcção.” Para além disso, todas têm algum tipo de intervenção política com a qual contribuíram “para a afirmação das mulheres no jornalismo e na sociedade”.

Fernando Alves não encontrou neste livro grandes novidades: “Já sabíamos, já pressentíamos que era assim, que fora assim”. “Mas não tínhamos ‘visto’, não tínhamos ‘entrado’ desta maneira no interior das redacções, na década em que o mundo ia começar a mudar mas em que a percentagem de jornalistas sindicalizadas era apenas de dois por cento”.

Em 2005, escreve Isabel Ventura, dos 156 novos associados registados pelo Sindicato dos Jornalistas, 90 eram mulheres. “As mulheres que falam neste livro são as que abriram as portas para que as coisas começassem a mudar nas redacções”, resume Fernando Alves. “Hoje, elas dão cartas. Mas ainda não definem o jogo. Dito de outro modo, nem sempre escolhem o trunfo.”

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