O plágio é mais frequente e menos penalizado?

Dias antes de ser conhecido o plágio de Fareed Zakaria, Jonah Lehrer tinha-se demitido da New Yorker (por inventar citações nada mais nada menos do que de Bob Dylan e por se plagiar a si próprio). Zakaria teve mais sorte: embora tenha ficado “marcado”, acabou readmitido pouco tempo depois tanto pela CNN como pela Time. Quando “super estrelas” da comunicação cometem falhas desta gravidade, alguma coisa vai mal no jornalismo. Mas o quê?

Num texto demolidor para Zakaria, Jim Sleeper, da Universidade de Yale, vinca a forma como este “super homem” da sociedade de informação passa (demasiado do) o seu tempo em “networking” e “lobbying”, pago por uma elite com objectivos políticos e económicos claros e exigência moral baixa. Reflexão e pensamento novo e intelectualmente honesto acabam secundarizados neste contexto.

Com o tempo, defende Sleeper, Zakaria mesmo transformou-se numa figura de proa de “nova elite que não responde a qualquer código de ética ou moral e se valoriza puxando a si os frutos dos trabalhos de outros”, defende.

Numa sociedade assim, cheia de aparências e “iluminados” promovidos pelas elites, a falsidade e a mentira têm terreno fértil, claro está.  Ainda assim, a perplexidade mantém-se: o que leva pessoas como Zakaria ou Lehrer a cometeram pecados capitais da profissão de forma tão leviana? Afinal, a probabilidade de ser descoberto quando se inventam citações de Bob Dylan ou se copia a New Yorker são relativamente grandes (que o diga Clara Pinto Correia)

David Carr, no New York Times, procurou a explicação para estes dois casos num texto recente. E se o plágio e efabulação tiverem, afinal, deixado de ser pecados capitais do jornalismo?

Carr pensa que pelo menos parte da explicação para os dois recentes casos reside exactamente aqui: as novas práticas e culturas nascidas no online, um meio voraz por novos conteúdos e mais condescendente com a mentira e ausência de rigor:

The self-cleaning tendencies of the Web got credit for unearthing the misconduct in the first place. Then again, the Web’s ferocious appetite for content — you are only as visible as your last post, as Clay Shirky recently said to me — probably had something to do with why Mr. Lehrer tried to feed the beast with retreads and half-baked work.

But part of the problem with journalism online is that it all seems mutable. The truth, if there is one, emerges in the wash and if there is an error, well, that’s what find and replace is for, right? Or maybe it can be finessed in the next post.

The now ancient routes to credibility at small magazines and newspapers — toiling in menial jobs while learning the business — have been wiped out, replaced by an algorithm of social media heat and blog traction.

Carr continua defendendo que se é certo que a Web facilitou a descoberta dos plágios e das mentiras, ela própria é mais condescendente com estes erros: só assim se percebe que Zakaria tenha sido rapidamente perdoado e reintegrado e Lehrer continue um sucesso no Twitter. Já não há pecados capitais.

 

 

 

 

 

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