O estado dos media: vendas, receitas e “refundações”

Há cerca de duas semanas, a agência Lusa publicou um conjunto de artigos – quase todos publicados no site da RTP – sobre media e jornalismo, focando-se na transição de um modelo de negócio centrado no papel para um que gire em torno do online. Numa dessas peças, a reflexão passava pela necessidade de o jornalismo se “refundar”.

“Provavelmente deixar-se-á de falar no futuro de jornais para se passar a falar em marcas de informação, de natureza digital, baseadas `online`, mas que podem estar presentes também em edições em papel (ou na rádio ou na televisão). Esse é o sentido mais global da grande metamorfose em curso no setor dos media”, diz Joaquim Vieira, jornalista e presidente do Observatório da Imprensa.

A função de guardião da informação, de “gatekeeper”, na expressão de Paulo Querido, jornalista e autor de vários livros sobre a Internet, “terminou para o jornalismo”.

“O jornalista perdeu a exclusividade e tornou-se numa ligação entre milhares”, diz Paulo Querido. Mas também a “função de fiscalização dos poderes (que, aliás, vinha recuando perante o avanço do poder financeiro e das estratégias de consolidação), torna-se em grande medida desnecessária” no exercício do jornalismo, completa.

Para Felisbela Lopes, professora de Ciências da Comunicação do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, os jornalistas “têm de se consciencializar de que não podem trabalhar com as mesmas agendas temáticas, com as mesmas fontes e com os mesmos enquadramentos”. “O mundo mudou. O jornalismo ainda não”, acrescenta.

Os números apontam exactamente nesse sentido. Nos Estados Unidos, as receitas de publicidade online já ultrapassaram as conseguidas com as edições impressas, o que tem obrigado os jornais e revistas norte-americanas a acelerarem a transição de modelo de negócio.

Noutro artigo, a Lusa lembra a decisão que correu o mundo dos media: a Newsweek deixará de ser publicada em formato papel no próximo ano. Mas há outros casos paradigmáticos. Basta pensar que o Huffigton Post, site virado para a “comunidade” e a partilha de artigos (muitos dos quais nem são da sua autoria), já tem quase tantos leitores mensais como o The New York Times (29 milhões em Maio deste ano).

Segundo dados da consultora eMarketer, os investimentos publicitários em meios digitais vão atingir este ano 37,31 mil milhões de dólares, superando pela primeira vez a “fatia” da imprensa tradicional, jornais e revistas, que irá novamente “encolher”, para 34,33 mil milhões de dólares, apesar de ainda terem muito mais leitores.

“Às vezes sinto-me uma paraquedista. A visibilidade é muito, muito baixa”, afirmou recentemente a sub-editora da revista New Yorker, Pam McCarthy.

“É preciso planear para o futuro, mas não sabemos realmente como vai ser o cenário”, adiantou.

A Newsweek foi até agora o título mais célebre a deixar o papel, mas os exemplos recentes abundam, incluindo a revista SmartMoney ou o diário The Times-Picayune, o único da cidade de Nova Orleães, que passou a ter apenas 3 edições por semana, concentrando-se no seu `site`.

Os números são muito claros. Segundo um estudo recente do Pew Research Center, somente 23% dos entrevistados leram um jornal no dia anterior. Em 2000, eram 47%.

Em Portugal, não faltam razões para questionar o actual modelo e programar um futuro diferente. Desportivos, semanários e diários generalistas tiveram, desde 2004, quebras de vendas de 42%, 39% e 30%, respectivamente. Só as publicações económicas e, de forma mais moderada, as revistas, escapam às conclusões negativas de uma comparação com 2004. As vendas dos económicos cresceram 17% e das revistas 3%.

Em 2012, o investimento em publicidade na imprensa deverá recuar para níveis de 1998.

“Hoje o investimento publicitário, que é um dos pilares das receitas da imprensa a par das vendas em banca e assinaturas, recuou para níveis de há 15 anos a preços correntes [não integra inflação], correspondendo a previsão para este ano ao investimento que existia um ano antes da Expo98”, disse à agência Lusa o presidente da OmnicomMediaGroup, Luís Mergulhão.

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