“Vamos a isso que se faz tarde”

Manifesto aprovado na Casa da Imprensa, em Lisboa, na noite de 26 de Junho:

“Vamos a isso que se faz tarde”

40 anos depois do 25 de abril, a liberdade de imprensa sofre um dos momentos mais negros da sua história. Sabemos que as questões que afectam o jornalismo não lhe são exclusivas: esvaziamento das redacções, precariedade, concentração da propriedade. Mas o jornalismo tem responsabilidades específicas e, nesta altura, está em risco. Em causa está o próprio paradigma do direito e do dever de informar como sustentáculos fundamentais de uma sociedade moderna, livre e democrática.


A intenção anunciada de um brutal despedimento colectivo na Controlinveste constitui mais um golpe no panorama informativo e serve hoje de pretexto para nos encontrarmos sem nos esquecermos que este é um processo com décadas. Editorias devastadas, partes significativas do território sem cobertura. É demais para quem parte e é demais para quem fica. 


Como garantir qualidade informativa sem meios? A falta de tempo, a superficialidade, as redacções amorfas, a precarização não são problemas novos. Temos grande responsabilidade pelo estado a que chegámos. Essa responsabilidade é colectiva mas começa por ser individual. Temos de ser exigentes com cada um de nós, com o colega do lado, com a chefia intermédia, a direcção e a administração. Mas só temos força e poder para exigir dos outros se nos organizarmos, se percebermos que somos classe. Da classe que somos fazem parte os que têm (ainda ou desde há pouco) redacções, os que são precários há 20 anos, os que estão a chegar à reforma, os que saíram pelo seu pé, os que não chegarão nunca a ter uma redacção, os que sonham com uma e a merecem. Juntos, somos e podemos. Cada um por si fica talvez muito pouco: a ilusão de um poder que já nem temos e que perderemos a oportunidade de recuperar se não agirmos já, com inteligência e exigência. 


Noutros países, há órgãos colegiais ouvidos pelos partidos, pela tutela, pelos patrões, pelo público. Há fundos de greve usados para fazer greve, quando ela é a última possibilidade para salvar empregos, condições de trabalho, independência, liberdade, democracia. Sim, para tudo isso podemos contribuir, e tudo isso podemos ajudar a destruir. A indignação não pode desaparecer com a espuma dos dias. É obrigatório não prescindir de eleger os órgãos representativos em cada órgão de comunicação social (CR, CT e delegados sindicais) e importa pensar se não será útil formar um colégio que junte representantes de cada um para tornar mais eficazes acções de luta e projectos jornalísticos.


Por fim, mas não por último, é urgente pensar em soluções conjuntas para garantir que as centenas de jornalistas que nos últimos anos perderam os seus empregos possam, se essa for a sua vontade, voltar a trabalhar. Aceitar a inexorabilidade de decisões alheias sobre as nossas vidas e a nossa profissão é aceitar a nossa impotência e, em última instância, a morte do chamado 4º poder. Chegou a hora de acordarmos. Parafraseando o já tão saudoso Manuel António Pina: não é ainda o fim do mundo, mas já se faz tarde.


Ana Luísa Rodrigues
Myriam Zaluar
Sofia Lorena
Cláudia Henriques
Sofia Branco
Ricardo Alexandre
Nicolau Ferreira
Nuno Aguiar
Camilo Azevedo
António Granado
Fátima Mariano
Paulo Pena
Carla Baptista
Pedro Rainho
Tiago Contreiras
Paula Sofia Luz
Frederico Duarte Carvalho
Sara Figueiredo Costa
Augusto Freitas de Sousa
Guilhermina Sousa
Mariana Mata
Miguel Marujo
Alexandre Martins
Nicolau Ferreira
Luís Gouveia Monteiro
Maria João Guimarães
Cláudia Marques Santos
Ricardo J. Rodrigues
José Manuel Rosendo
Isabel Pereira Santos
José António Cerejo
Paulo Martins
Sandra Bernardo
Viriato Teles
Sandra Monteiro
Eugénio Alves
Sofia Quintas
António Loja Neves
Luís Reis Ribeiro
Catarina Almeida Pereira
Sofia Cristino
José David Lopes
Raquel Ribeiro
Carlos Lopes
Abel Coentrão
Nuno Ferreira
Isabel Gorjão Santos
Carlos Branco
Migue Manso
Dulce Furtado
Bruno Rascão
Sandra Oliveira
Ricardo Bordalo
Manuela Barreto
João Dias
Leonor Figueiredo
Maria João Guardão
Luís Filipe Sebastião
Pedro Jerónimo
António Passos Leite
Margarida Neves de Sousa
Maria Augusta Casaca
Alda Rocha
Alfredo Mendes
Clara Barata
Isabel Lucas
Rui Peres Jorge
António Costa Santos
Isabel Moreira
Tânia Sousa Marques
Áurea Sampaio
António José Vilela
Inês Rodrigues
João Vasco
Rita Travassos
Sofia da Palma Rodrigues
Patrícia Alves
Patricia Fonseca
Carlos Júlio
Liliana Valente
Rodrigo Cabrita
Cátia Bruno
Neuza Padrão
Inês Forjaz
Maria João Rocha
Miguel Roque Dias
Tiago Cardoso Pinto
Patrícia Fonseca
Luís J. Santos
Enrique Pinto Coelho
Rita Ferreira
Luís Silva
Filipe Paiva Cardoso
Emília Freire
Paulo Nobre
Helena Geraldes
Ricardo Dias Felner
Sara Rodrigues
Catia Simoes
Pedro Dias de Almeida
João de Sousa
João Naia
Julia Fernandes
Rita Ramos
João Rosário
João d’Espiney
David Clifford

Esta entrada foi publicada em Condições laborais, Jornalismo. ligação permanente.

6 respostas a “Vamos a isso que se faz tarde”

  1. Osvaldo Pires diz:

    Ordem de Jornalistas, precisa-se!…

  2. Orlando Castro diz:

    Onde andavam vocês quando, em 2009, se consumou o despedimento colectivo nos mesmos órgãos de comunicação social?

  3. Orlando Castro diz:

    Comentário repetido porque todos oas anteriores não foram publicados:
    Onde andavam vocês quando, em 2009, se consumou o despedimento colectivo nos mesmos órgãos de comunicação social?

  4. João Pinho diz:

    Subscrevo;)

  5. luisa rego diz:

    onde/como se subscreve o ‘manifesto’? obrigada.

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